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De um artista ao outro
.........Realizadas em
1983, durante um período de permanência na Europa, as
imagens de Alair Gomes apresentadas na Maison Européenne
de la Photographie, em Paris, são totalmente inéditas.
Encontradas por acaso em arquivos conservados pela irmã
de Alair, essas obras mostram o apreço que esse
fotógrafo apaixonado pela perfeição formal e pala beleza
clássica sempre dedicou à escultura greco-romana.
.........Ao pedir a Miguel
Rio Branco para editar essas imagens, Fabio Settimi nos
oferece um exemplo perfeito da contribuição que o olhar
de um artista pode trazer à obra de outro. Sabe-se que o
ordenamento e a seqüência estão no cerne do procedimento
de Alair Gomes e que é a série que confere sentido a
suas fotografias. Algo semelhante ocorre com Miguel Rio
Branco que, em numerosos polípticos, prima em orquestrar
as imagens para lhes restituir força e plasticidade.
.........Sem trair Alair
Gomes, mas interpretando-o pela inteligência de sua
disposição especial e pelo rigor de suas composições,
Miguel Rio Branco insufla vida a imagens que, sem ele,
poderiam desaparecer para sempre, como simples
documentos. Assim, sob a forma de homenagem a um artista
morto prematuramente, ele nos oferece, mais que um
exercício de estilo, uma verdadeira criação.
Jean-Luc Monterosso
Diretor da Maison Européenne de la Photographie,
em Paris.
.........A
New Sentimental Journey (Uma nova jornada sentimental) é
o título de um texto de viés filosófico escrito em forma
de diário por Alair Gomes no qual narra uma viagem
empreendida à Europa em 1083. Mais de setecentas fotos
ilustram sua jornada, Ademais de revelarem o absoluto
conhecimento que o autor tinha da arte clássica, essa
imagens dialogam intimamente com o conjunto de sua obra
fotográfica. Aqui, a ênfase no erótico masculino é -
conceitualmente - idêntica à percebida nas célebres
séries de rapazes em praias no Rio expostas em Paris em
2001, na Fondation Cartier, no Rio em 2003, no MAM, e em
Porto Alegre, em 2008, na Usina do Gasômetro.
.........As fotografias, a
par do longo texto de mais de quinhentas páginas,
escritas originalmente em inglês, explicitam a
cosmovisão essencialista de Alair, cujo ponto de partida
é o Eros, entendido pelo autor como a essência,
indistinta, do divino e do estético, e consubstanciada
na imagem do corpo masculino. Para o artista, tal visão
é o fundamento da própria vida e da arte,
legitimando-as. seria, assim, um ethos. A sexualização
do corpo masculino constitui uma idéia fixa que percorre
todo o discurso estético e filosófico do autor. Nesse
contexto, Alair revela-se um místico e um panteísta que
experimenta êxtases diante de seres vivos, como rapazes
que fotografa na rua ou em seu ateliê, ou diante das
suas projeções iconográficas, tais como as estátuas de
Fídias ou Michelangelo.
.........Curador da mostra,
o artista-fotógrafo Miguel Rio Branco selecionou imagens
aptas a criar as seqüências fotográficas que ora se
exibem.
.........Esta série de
fotos, pela primeira vez apresentada ao público, mostra
- em perfeita sintonia com a produção global - uma nova
faceta da arte de Alair Gomes.
Tirar fotografias das
esculturas do Partenon é para mim um ritual.
Endereço-lhe uma prece: manter sempre uma chama em mim -
não permitir nenhuma diminuição de minha capacidade de
ver o sagrado e reconhecer a evidência do divino na
carne mortal.
Referência à
Vitória de Samotrácia, no Louvre.
Sinto-me, então, como se estivesse diante de algum
adolescente extraordinariamente esplendoroso, que, de
boa vontade, consentisse em posar diante de mim, desnudo
- o que me desvanece.
Referência ao
David, na Academia de Florença
Em seu freqüente desafio à razão convencional, ou
indiferença a ela, Eros pode ser a verdadeira luz da
razão - o caminho mais confiável e supremamente ameno
até ela.
A ciência não está preparada para lidar com o erotismo,
como fascinação, mas, no máximo, só é capaz de
enfrentá-lo de acordo com uma atitude falsificadamente
fria e pseudo-objetiva...
Trechos
extraídos de A New Sentimental Journey (tradução de Aíla
Gomes) |