O artista “mineiro” José Bento – nasceu na Bahia em 1962 mas sempre viveu e trabalhou em Belo Horizonte - traz para a Galeria Bergamin quatro trabalhos inéditos (2006) e o site specific Chão (2004). Essa obra, que foi criada especialmente para exposição individual realizada em 2004 no Museu de Arte da Pampulha, Belo Horizonte e que criou uma intervenção radical na arquitetura modernista de Oscar Niemeyer, mais uma vez estabelece um diálogo com a arquitetura moderna, no espaço assinado pelo arquiteto paulista Vilanova Artigas em São Paulo , onde se localiza a Galeria Bergamin. Em Chão, o artista sinaliza um novo interesse em sua obra: o limite entre o escultórico e o arquitetônico. “As obras que encontramos nesta exposição são diferentes objetivações e reinvenções da dualidade das relações da forma”, escreve o crítico Ricardo Sardenberg.

O site specific cobre toda a extensão do piso do andar térreo da casa com 216 modulos em metal e tacos de madeira provenientes de demolições, com cerca de 20 centímetros de altura, e distante dois centímetros das paredes e coluna do espaço, acompanhando rigorosamente os detalhes e ângulos da arquitetura de Artigas. “A escultura é o espaço negativo da casa, ou melhor, o plano negativo do desenho original de Vilanova Artigas”, explica o crítico. No centro da maior sala, por um sistema de molas, em uma área de 9 metros2, o piso em madeira fica elástico, alterando a relação da obra com o publico, e por sua vez do publico com a galeria.

Os quatro trabalhos recentes seguem com a madeira - material seminal na obra de José Bento desde meados da década de 80. Na mesma área do site specific, outro trabalho, Cobogó [nome dado no Recife e em algumas regiões do País aos tijolos ou “elementos vazados” em cerâmica, concreto ou porcelana, empregados na construção de paredes perfuradas, para proporcionar a entrada de luz natural e de ventilação. Foi inventado por três engenheiros-arquitetos brasileiros, na primeira metade do século, que o batizaram com a união de suas iniciais: Coimbra, Boeckmann e Góis]. Trata-se de uma parede inserida na arquitetura da galeria, composta de 286 peças esculpidas à mão, em madeira baraúna, onde mais uma vez o artista estabelece uma relação com elementos de design arquitetonicos para desenvolver seu trabalho escultorico. “Em trabalhos como os Cobogós, José Bento forma a zona de incerteza do ready-made, pois são os objetos em si, mas apenas através da idéia que fazemos deles”, afirma Sardenberg.

No andar superior da galeria, José Bento apresenta Bar, trabalho montado com cem copos modelo “lagoinha” esculpidos em diversas madeiras tradicionalmente usadas em barris para curtir cachaças. As cachaças poderão ser degustadas cada uma no copo da respectiva madeira onde foi curtida, transformando, assim, o aroma e o sabor da bebida nacional. “E se em Chão nossa percepção de direção é alterado, quando a cama elástica nos atira para o ar, no Bar ingerimos uma bebida e assim alteramos nossa percepção de dentro para fora”, ressalta Sardenberg.

No mesmo piso, ainda, além da série fotográfica 14 Cadeiras 14 fotografias que retratam a desconstrucao de uma cadeira feita de 115 partes e a construção de um cubo com essas mesmas partes - será apresentado um vídeo, Sem título, realizado no ateliê do artista com imagens de pó da madeira e pequenas mariposas, onde se perde a noção de espaço. Nestas imagens, segundo o crítico, “supre-se forma, limite e matéria - a escultura esta implicada, mas nunca realizada”.