Por Daniela Bousso
......Arte
Cinética é o conjunto de pesquisas na arte sobre luz e
movimento, focadas nas investigações sobre a participação do
espectador. Em Paris, uma exposição realizada na galeria Denise
René, em 1955, intitulada “O movimento”, abriu espaço para as
proposições de artistas como Jesus Soto, Tinguely, Vasarely,
Agam e outros.
......No
prisma da arte Latino Americana, três países tiveram um
desenvolvimento artístico mais significativo no campo do
cinetismo: a Venezuela, a Argentina e o Brasil. É curioso notar
que, quase em simultaneidade, em um curto espaço de tempo –
entre 1943 e 1952 – uma série de acontecimentos no campo da arte
prepararam o terreno nestes países para o desenvolvimento da
Arte Cinética como tendência.
......No
Brasil, o ímpeto de desenvolvimento que explode nos anos
cinqüenta com o governo de Juscelino Kubitschek é antecedido –
no campo da arte – pela implantação dos Museus de Arte Moderna
em São Paulo em 1946 e no Rio de Janeiro em 1947. A primeira
Bienal de São Paulo, em 1951, nasceu com a missão de promover a
arte brasileira no circuito internacional. Contávamos então com
o suporte do crítico Mário Pedrosa, que deu impulso à realização
da primeira obra cinética no Brasil: o “Cinecromático” de
Abraham Palatnik, exibido na Bienal em 1951, era um enorme
aparelho, que emitia cor e luz e se tornava precursor do
cinetismo no planeta.
......Encetada
entre os anos 1950 e 1960, a Arte Cinética produzida por
artistas sul-americanos – que debandaram para Paris após o
segundo pós-guerra – revela a premência de conhecimento e de
avanço do meio artístico latino americano no período. A relação
entre arte e ciência era problematizada e estimulava-se a
participação do espectador na obra de arte.
......Nos
anos 1940, o desejo latente de construção de novos códigos que
superassem as linguagens tradicionais na arte e a construção do
Museu Nacional de Belas Artes, projetado pelo arquiteto Raul
Villanueva, começavam a sacudir a cena artística de Caracas,
onde já pulsava a necessidade de avanço e efervescência,
juntamente com a criação dos salões de arte.
......Em
Buenos Aires, um grupo de artistas sob liderança de Tomás
Maldonado dedicava-se a publicações como a revista Arturo de
1944, o Manifesto Madi, de 1946, sendo que o último deu origem
ao grupo Madi. No mesmo ano, o grupo Arte Concreta Invenção,
liderado por Lucio Fontana, teria influência nos
desenvolvimentos estéticos da obra de Julio Le Parc. Entre os
artistas que integravam o ambiente e os acontecimentos, estavam
Horácio Garcia Rossi, Gregório Vardanega, Martha Boto e o
próprio Le Parc, às voltas com problemas políticos na Argentina
pelo seu engajamento marxista, que por vezes estabelecia
interlocução com Maldonado
......Em
Paris, os argentinos Júlio Le Parc, Martha Boto, Gregório
Vardanega e Horácio Garcia Rossi constituíram um núcleo de ação
e pensamento – o GRAV – que propôs a renúncia ao ato de criação
romântico, movido pelo mistério da inspiração. Para eles, o
processo criativo da obra era mais interessante que o resultado
final. Fundado em 1958, o GRAV se dissolveu em 1968.
......A
criação pioneira de Abraham Palatnik no Brasil somou-se às
tendências abstratas na arte com a emergência do Concretismo e
do Neo-Concretismo, que rompe com o Concretismo paulista
liderado por Waldemar Cordeiro. O Neoconcretos reivindicaram o
rompimento do predomínio da razão e evocaram a experimentação e
a retomada do sensorial na arte, incluindo a participação do
público. Dentro das tendências abstratas, podemos ainda citar a
participação ativa de artistas como Danilo di Prete, o qual
aprofundou as pesquisas de luz e movimento com suportes
bidimensionais e Ubi Bava, cujas preocupações se voltaram ao
deslocamento do espectador frente à obra.
......Os
venezuelanos Cruz Diez, Otero e Soto registraram importantes
contribuições para o desenho de uma trajetória que revelou o
pensamento contemporâneo em arte da América Latina e a sua
importância em termos universais.
Cruz Diez construiu a sua plataforma de trabalho a partir de um
conceito: a cor seria uma situação real, evolutiva no espaço e
tempo e não transposta, como em Cézanne e Mondrian. Suas
Cromosaturações, seguidas do desenvolvimento das Fisiocromias,
exemplificam o acontecimento, a situação como mutação ou
desmaterialização. A busca de um clima cromático permeado pela
instabilidade, pelo aleatório e pelo evolutivo leva o espectador
a deslocar-se frente à obra, provocando a mudança de posição da
fonte luminosa. Estas eram as bases que enunciavam a renovação
da pintura em relação aos mestres do Modernismo, constituindo
uma estética própria: o público deveria deparar-se somente com o
espetáculo da cor em transformação.
......Para
Soto o aprofundamento do projeto enunciado pelos mestres russos
do Neo-plasticismo era fundamental. Isto o levou a substituir os
conceitos de forma e composição por outros totalmente diferentes
– tais como elemento e estrutura – que deram origem às obras
seriais, aonde a pontuação visual oferece uma leitura próxima
dos códigos musicais. Ele queria incorporar o movimento e o
tempo à obra e a solução foi a superposição de linhas, acrescida
dos conceitos de repetição e progressão, até chegar aos
Penetráveis, que o público podia adentrar.
......Abraham
Palatnik almejava trazer para a arte pictórica a possibilidade
de luz e movimento, no tempo e no espaço. Introduzido aos
estudos sobre a Gestalt por Mário Pedrosa, após a primeira
Bienal de São Paulo prosseguiu investigando formas, projeções de
luz, pesquisando o desenvolvimento de motores elétricos e
princípios caleidoscópicos. Constituiu a primeira tentativa, no
Brasil, de realizar uma das utopias do projeto moderno da arte:
a de Moholy-Nagy, não realizada, que propunha a criação de
afrescos de luz, a serem projetados sobre edifícios inteiros.
Para Nagy, as casas do futuro teriam “um lugar especial para a
instalação de afrescos luminosos”.
E o que corresponderia a esses afrescos hoje, senão a instalação
dos televisores de tela plana nas residências
......O
foco de rompimento com a representação por parte dos cinéticos
visava ultrapassar os postulados dos mestres modernistas:
Duchamp, Moholy-Nagy, os surrealistas e os futuristas, o legado
do Construtivismo Russo e da Bauhaus e a problematização do
abstracionismo geométrico de Mondrian estavam em pauta.
......Ao
romper com a representação, a Arte Cinética “produziu movimentos
óticos gerados a partir do deslocamento do observador frente às
obras, movimentos criados a partir do emprego de forças
mecânicas com o uso de motores e movimentos criados a partir da
interação física do espectador com a obra”, segundo o artista e
pesquisador André Parente1, que ressalta ainda que “as obras
cinéticas integram o movimento real, o movimento ótico e o
movimento mecânico”.
......Grande
parte da produção teórica ainda se refere à Arte Cinética como
um movimento que durou apenas uma década – precisamente entre os
anos 1958 e 1968 – como se em arte fosse possível estabelecer
datas que definam começo e fim de certos processos. Atualizar a
visão sobre o cinetismo significa o entendimento do mesmo como
uma arte de passagem, de trânsito para futuros desenvolvimentos.
Cresce em importância para a compreensão dos fenômenos ligados à
percepção sensória e a interatividade, que hoje permeia a
produção artística e desemboca na vertente da arte contemporânea
ligada às operações que geram interfaces entre arte e
tecnologia.
......A
Arte Cinética é, então, por excelência, arte do corpo, assim
como as obras de Lygia Clark e Hélio Oiticica o são, pelas suas
proposições perceptivas e sensoriais e pelo aporte da obra em
relação à escala do corpo. Os deslocamentos promovidos pela Arte
Cinética e o legado de Clark e Oiticica têm mais do que nunca um
papel fundamental na arte contemporânea, que hoje exige cada vez
mais a participação do espectador.
......Exemplos
disso são: Infinito ao Cubo de Rejane Cantoni e Leonardo
Crescenti, recentemente exibido na Pinacoteca do Estado e na
feira ARCO, as instalações penetráveis de Ernesto Neto, a obra
Op-era, de Daniela Kutschat e Rejane Cantoni, as instalações
interativas de Rafael Losano Hemmer no pavilhão mexicano da
última Bienal de Veneza ou, ainda, a cena urbana VJ/DJ, que
privilegia o deslocamento do espectador a partir da integração
da imagem em movimento com o som.
......A
Arte Cinética, portanto, vive e resiste aos processos de
transformação e à velocidade do mundo atual, em permanente
mutação. Junto aos avanços tecnológicos, ela se faz presente nas
mais diversas formas da arte contemporânea, extrapola as
fronteiras latino-americanas e alça vôos intercontinentais.